A África Negra

A África Negra nos séculos VIII-XIV

Hoje a África é lembrada, mais frequentemente, pela pobreza dos que a constituem e pelas continuas guerras civis que contrapõem seus habitantes, agravando ainda mais o estado de miséria de sua população.
No ensino de história do Brasil, o continente africano é geralmente mencionado apenas como o fornecedor de mão-de-obra escrava para a antiga América portuguesa e o Império, além de berço de características raciais e culturais dos brasileiros.
Na história geral, o Egito e o norte da África parecem um continente apartado do imenso território africano, como se a história deste, por não estar diretamente ligada à da Europa até o século XV, não fosse interessante.
Este capítulo procura acompanhar, ainda que de modo breve e panorâmico, o período entre os séculos VIII e XIV da chamada África Negra – a parte do continente povoada por etnias negras –, situada abaixo do Saara de onde saía boa parte das mercadorias consumidas pelos europeus e comercializadas por bizantinos e muçulmanos.

A Etiópia e as cidades da costa oriental africana

Até o século VIII da era cristã, o contato dos povos da Ásia e da Europa com os do centro e do sul da África foi dificultado pelo deserto do Saara. Este, extremamente árido e inóspito, começou a ser atravessado pelos muçulmanos, que buscavam não só as riquezas dos reinos ao sul do rio Nilo, como também a conversão de sua população.
Essa travessia ocasionou o contato com povos até então pouco conhecidos ou mesmo ignorados por europeus e asiáticos. Os povos africanos se organizavam de formas diversas. Muitas tribos viviam da caça, da pesca e da colheita de frutos silvestres. Outras se fixaram sobretudo às margens dos rios, onde desenvolveram a agricultura, constituindo-se em reinos.
O mais antigo reino africano era a Etiópia, conhecida dos gregos e dos romanos. “Etiópia” é uma palavra grega que significa o país dos “caras queimadas”. Na Antiguidade, os gregos chamavam todas as terras onde viviam negros de “Etiópia”, sem distinção.
Durante a dominação bizantina no Egito e na Núbia, a Etiópia converteu-se ao cristianismo, religião a que permaneceu fiel mesmo depois de os dois reinos vizinhos terem sido conquistados pelos muçulmanos.
Do século VIII ao XIII, o reino etíope forneceu à Arábia marfim, ouro, âmbar, almíscar, peles de pantera e escravos – principalmente eunucos (homens castrados) de pele clara –, vendidos a altos preços no mar Vermelho e no golfo Pérsico.
Durante os primeiros séculos da era cristã, mais ao sul, principalmente nas ilhas da costa banhada pelo oceano Índico, já havia pequenos entrepostos comerciais. Por eles passavam navios romanos, árabes e persas em busca de incenso, marfim, carapaças de tartaruga, chifres de rinoceronte, escravos, peles de pantera, etc. Deixavam em troca lanças, adagas e machados de ferro, tecidos de algodão, objetos de vidro, vasos de cerâmica e um certo “mel extraído de uma cana” – o açúcar.
O islamismo difundiu-se lentamente na região a partir do século VIII até o final do XII. Constituída basicamente por cidades autônomas, quase nada se sabe sobre sua estrutura política. O intenso comércio com as tribos somalis ou bantas que as circundavam explica a ausência de muralhas cercando essas cidades. Para estas, numa rede de sucessivos escambos, vinham os escravos o ouro, o marfim e as peles obtidos no interior africano, que recebia em troca sal, peixe seco, panos, ferro, contas e cauris (espécie de concha usada como moeda). A partir do século XV, os europeus disputarão esses portos com os muçulmanos.

O reino Aksum

A Etiópia moderna, criada no século XX, originou-se do antigo reino de Askum. Segundo a tradição lendária, a monarquia aksumita foi fundada no ano 1000 a.C. por um suposto descendente da união do rei Salomão, de Israel, com a rainha de Sabá, cidade da antiga Arábia.
O mais provável é que judeus ou pessoas convertidas ao islamismo tenham chegado à Etiópia vindos da Arábia do Sul. Desembarcaram em pequenos grupos e prosseguiram, na Etiópia, o processo de conversão das populações ao judaísmo.
Grande parte dos aksumitas dedicava-se à agricultura e à criação de animais. Eles cultivavam o trigo e outros cereais, conheciam também o cultivo da uva e usavam arados puxados por bois, carneiros, cabras, asnos e mulas.
Em aksum diversos artesãos trabalhavam os metais e construíam casas. Utilizavam um tipo de cimento que permitia construir casas de pedra e madeira.
A organização política do reino de Aksum centrava-se na figura de um rei, que controlava outros reinos que lhe pagavam tributos. Os parentes do rei trabalhavam na direção dos negócios públicos e na organização dos exércitos.
O reino de Askum foi o primeiro reino africano a ter moedas de ouro, prata e cobre. As moedas aksumitas tinham legenda em grego, língua corrente entre as pessoas mais próximas do rei, e nelas eram gravados os nomes dos soberanos. Na população em geral, o etíope antigo era a língua mais usada.
Aksum controlava rotas comerciais que o ligavam ao Egito, à Síria e às regiões do interior da África. Comerciantes aksumitas ofereciam mármore, chifres de rinoceronte, couro de hipopótamo, macacos e escravos.

Um reino cristão na África

O cristianismo foi introduzido em Askum por volta do século IV. Após a conversão dos reinos vizinhos ao islamismo, no século VII, Askum, um reino cristão, isolou-se do restante do mundo.
No século XIV, uma delegação aksumita em visita à Europa reacendeu naquele continente o desejo pela busca do reino do “Preste João”. Segundo a lenda, Preste João seria um rei cristão do Oriente que ajudaria os europeus na luta contra os muçulmanos. Até então, os europeus acreditavam que esse rei vivesse na Ásia. A partir dos relatos dos viajantes aksumitas, muitos aventureiros europeus partiram para Aksum, em busca desse soberano.

Os reinos de Gana e Mali

Com a utilização do camelo como meio de transporte, ao longo dos primeiros séculos da era cristã, as terras ao sul do Saara e a região do Mediterrâneo estabeleceram contatos comerciais, intermediados pelas tribos berberes. Desde fins do século III, o ouro, em pequenas quantidades, começou a atravessar o deserto, rumo ao norte da África. Não por acaso, Cartago funcionou como importante centro de cunhagem de moedas durante a dominação bizantina.
Com o tempo, pequenas aldeias transformaram-se em centros de comércio, riqueza e poder na região de origem do metal precioso. Cada um desses centros procurava controlar o comércio com as caravanas, o acesso às salinas do deserto (o sal servia principalmente de moeda de escambo com outros povos) e o domínio das rotas caravaneiras.
O ouro – tão importante para a economia da Europa e do Oriente – e o sal foram as fontes de riqueza que sustentaram o poder de Gana. É provável que Gana existisse desde o século IV. Já no final de século VIII, os muçulmanos se referiam a ele como o País do Ouro, embora entre seus habitantes “gana” fosse o título usado pelos reis.

Gana, o primeiro grande reino

Na África, ao sul do Deserto do Saara, havia grandes reinos. O reino de Gana, no oeste do continente, desenvolveu-se a partir de 300 d.C. e durou quase mil anos. Nessa sociedade, o rei era visto como o elo entre os deuses e os homens. Uma hierarquia composta de sacerdotes, nobres e funcionários cuidava da administração do reino. Cada cidade tinha seu governante, que devia obediência ao rei.
A população do reino dedicava-se à agricultura e à criação de gado. O comércio era essencial para a economia do reino, assim como as minas de ouro.
Os domínios e o poderio de gana atingiram o apogeu entre o final do século X e o início do século XI, quando seus soberanos se converteram ao islamismo. Um de seus reis, Tunca Menin, que chegou ao trono em 1062 ou 1063, podia reunir sob seu comando até 200 mil soldados, sendo 40 mil deles arqueiros.
A prosperidade que o comércio trouxe ao reino também atraiu as tribos vizinhas, que o pilhavam, ocasionando a invasão da capital – Koumbi – por nômades do Saara. Embora tenha durado pouco essa ocupação provocou desarranjos no comércio e disputas pelo poder em Gana, enfraquecendo e desorganizando o reino. Em função disso, ele acabou sendo tomado por um reino vizinho: Máli.
Por volta de 1240, Koumbi foi ocupada pelos malinês, então já convertidos ao islamismo. Os domínios do Máli, cujo soberano era chamado mansa, estenderam-se sobre as antigas minas auríferas de Gana e sobre os povos mineradores vizinhos.

O poderoso reino do Máli

O reino do Mali surgiu ao redor da cidade de Timbuktu, fundada por volta do ano 1100. A cidade nasceu como ponto de apoio e abastecimento das caravanas que traziam sal das minas do Deserto do Saara. O sal era trocado por ouro e escravos trazidos pelo Rio Níger. Os malineses tornaram-se os principais fornecedores do metal precioso para a Ásia e, em menor quantidade, para a Europa.
No século XIV, Timbuktu fazia parte do poderoso Império Máli, que controlava o lucrativo negócio do sal em toda a região. O império atingiu o seu auge sob o governo de Mansa Musa, que se converteu ao islamismo.
Timbuktu tornou-se o centro intelectual e espiritual islâmico da África ocidental. Grandes mesquitas, universidades, escolas e bibliotecas foram construídas durante o Império Máli. A cidade foi habitada por muçulmanos, cristãos e judeus durante centenas de anos, sendo um centro de tolerância étnica e religiosa.
O Império Máli foi destruído com a invasão marroquina no século XVI.

Zimbábue, o reino do sul

O reino do Zimbábue, localizado na porção sul do continente africano, tinha como característica a centralização política sob o governo de uma dinastia real.
Sendo o pastoreio a atividade desenvolvida pela maioria da população, era necessário criar meios de proteção, tanto dos rebanhos de animais como do amplo território utilizado para pastagens. O poder centralizado cumpria esse papel.
Além da atividade pastoril, havia a extração de ouro e marfim, negociado com comerciantes da Índia e da Arábia. Em troca, os mercadores africanos recebiam tecidos finos, porcelana chinesa e louças da Tailândia.
O luxo e o poder proporcionados pelo ouro ficam evidentes na Grande Zimbábue, uma cidade, hoje em ruínas, erguida entre 1100 e 1600, e que chegou a ter 17 mil habitantes. Em seu interior encontra-se o Grande Recinto, uma construção cuja muralha tinha 244 metros de comprimento e 10 metros de altura.

O reino de Kush

O reino de Kush existiu onde hoje é o Sudão, na África ocidental, na região então conhecida como Núbia. O território núbio foi inicialmente explorado pelos faraós do Egito devido às suas riquezas, sobretudo o ouro. O próprio nome, Núbia, deriva de uma palavra que significava ouro na escrita egípcia.
A partir do século VIII a.C., com o declínio do poder egípcio, a Núbia ganhou maior autonomia. A primeira capital do reino de Kush foi a cidade de Napata, depois transferida para Méroe. Na capital moravam o rei e seus funcionários.
A organização política do reino centrava-se no rei, que era eleito pelos chefes militares, altos funcionários e líderes locais. O rei era considerado o filho adotivo de várias divindades.
A população de Kush era formada basicamente por agricultores, criadores de gado e por escravos obtidos em guerras. Artesãos e pequenos comerciantes também estavam presentes. No artesanato destacavam-se os produtos de ferro, couro e cerâmica, além de joias.
A criação de gado era a principal atividade econômica no reino de Kush, mas também se destacava o cultivo de trigo, lentilha, pepino, melão e abóbora. Assim como no Egito, construíram-se canais para aproveitar as cheias do Rio Nilo.

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