Atenas: democracia escravista
Diferentemente de Esparta, um verdadeiro quartel em tamanho gigante, Atenas se destacou pela vida intensa e rica, urbana e aberta para as novidades. Situada em uma região relativamente rica em minérios e portos, pôde desenvolver-se através de um intenso comércio realizado com diversos povos. Era uma cidade de navegadores, filósofos, poetas e artistas.
I - O PERÍODO ARISTOCRÁTICO
O primeiro momento da história
política de Atenas desenvolveu-se concomitante ao início da pólis, era uma
espécie de monarquia onde o poder estava nas mãos de um Basileu. Com o
fortalecimento dos eupátridas percebemos uma crescente contestação aos poderes
do Basileu, as pressões sofridas pelo soberano fizeram com que este lentamente
perdesse força em benefício dos grandes proprietários de terras atenienses.
Tal fato marcaria o início do
período aristocrático, que iremos estudar neste primeiro tópico.
ORGANIZAÇÃO SOCIAL
A sociedade ateniense era
constituída na fase aristocrática pelos seguintes grupos, basicamente:
EUPÁTRIDAS: Donos das grandes
propriedades de terra em Atenas constituíam a “aristocracia de nascimento”,
eram os únicos a possuir o título de cidadãos atenienses durante este período,
podendo ocupar cargos públicos e tendo os direitos civis assegurados.
GEORGÓIS: Pequenos proprietários de terra, não possuíam direitos civis, não sendo, portanto, considerados cidadãos.
THETAS: A imensa camada de
homens livres expropriados, sujeitos à escravização por endividamento.
Ao longo do desenvolvimento
histórico de Atenas, novas camadas sociais foram ocupando posições de destaque
em seu cotidiano, especialmente a partir da colonização – que estudaremos
adiante -, dentre os novos personagens destacamos:
DEMIURGOS: De origens diversas
– e controversas –, seriam os comerciantes e artesãos atenienses, compondo a
princípio um segmento intermediário.
METECOS: Denominação dada aos
estrangeiros que habitavam na cidade. Convém recordar que a ideia de forasteiro
entre os gregos está relacionada com qualquer indivíduo oriundo do exterior da
cidade, fosse grego ou não.
ESCRAVOS: Eram inicialmente
poucos, mas acabaram crescendo em número e importância dentro desta sociedade.
Estudaremos o tema mais detalhadamente em um tópico posterior.
ORGANIZAÇÃO POLÍTICA:
A sociedade era dominada pelos
eupátridas, grandes proprietários de terras que detinham o controle sobre o
governo. A origem era o fator decisivo para a definição de direitos na Atenas
aristocrática, fato que, conforme já dissemos, beneficiava apenas os eupátridas
que detinham o controle de todos os órgãos políticos.
ARCONTADO: Com o declínio da
autoridade do Basileu, seus poderes foram fracionados entre nove arcontes que
seriam eleitos anualmente.
AREÓPAGO: Conselho formado com a finalidade de indicar os arcontes e fiscalizar as suas atividades.
A COLONIZAÇÃO ATENIENSE
O que se convencionou chamar
de colonização entre os gregos também pode ser entendido como uma 2ª diáspora.
Tendo em vista que a ruína do sistema gentílica expôs toda a fragilidade do
território grego, no que diz respeito ao desenvolvimento da produção da terra,
os anos que se seguiram foram marcados por uma verdadeira crise agrária que só
poderia ser resolvida a partir da expansão dos domínios das principais cidades
para outros pontos do Egeu e do Mediterrâneo.
O estabelecimento das colônias
em outros pontos do mundo antigo foi de uma importância tremenda para a história
ateniense, pois favoreceu uma série de transformações expressas em diversos
níveis. No plano econômico, houve um certo alívio na questão do abastecimento
de gêneros agrícolas, um comércio intenso foi desenvolvido com as colônias e
outros centros, ampliando assim o contato entre Atenas e as sociedades do Mar
Mediterrâneo. No plano cultural tivemos um notável incremento, impulsionado a
partir do intercâmbio com as regiões conquistadas e com aquelas que Atenas
mantinha relações comerciais, tal fato transformou esta cidade numa referência
obrigatória em termos de produção intelectual.
O incremento do comércio ainda
favoreceria os demiurgos, que de meros coadjuvantes se transformaram em coprotagonistas
da vida econômica de Atenas. Gradualmente, o enriquecimento dos comerciantes
funcionaria como um estímulo para que passassem a reivindicar uma participação
política igual a dos eupátridas.
O aumento do número de
escravos foi outra importante consequência da colonização. A expansão foi
muitas vezes imposta e desta maneira, acabou fornecendo inúmeros prisioneiros
de guerra. O aumento do fluxo de escravos dificultava o aproveitamento da
mão-de-obra livre, forçando os thetas a contrair dívidas junto aos cidadãos, de
modo que não conseguindo quitar seus empréstimos acabavam escravizados. Os
georgóis também foram vitimados por esta situação.
AS LUTAS SOCIAIS
É impossível negar que as
mudanças geradas pela colonização ateniense provocaram em demiurgos, georgóis e
thetas, cada qual por um fator específico, um anseio por transformações de
ordem política, social e jurídica. Este panorama daria início a um período de
confrontações que acabaria provocando mudanças.
OS REFORMADORES ATENIENSES
O ambiente das lutas sociais
em Atenas acabou por forçar os eupátridas a permitir algumas reformas que
promoveriam mudanças internas a partir de propostas elaboradas pelos legisladores.
O primeiro legislador foi
Drácon, a quem coube, em 621 a.C., redigir as leis que, até então, eram
transmitidas apenas oralmente. A severidade das punições foi a marca da
legislação draconiana, tanto que draconiano se tornou um adjetivo caracterizador
de tudo o que é duro e cruel. Tal severidade, porém, não foi suficiente para
diminuir a violência dos conflitos sociais em Atenas.
Em 594 a.C., Sólon tentou
resolver o problema, decretando o fim da escravidão por dívidas, antiga
reivindicação popular, devolvendo as terras confiscadas aos endividados. Além
disso, estabeleceu que o critério para a participação na vida política passaria
a ser a renda do indivíduo. Inaugurou, dessa forma, uma república censitária,
na qual apenas os que possuíam poder econômico conquistavam o direito de
participar nas decisões do governo. Apesar do avanço em direção às
reivindicações populares, também a legislação de Sólon não foi suficiente para
acabar com as tensões.
II - A TIRANIA
Conforme vimos no tópico
anterior, as reformas de Sólon embora tenham produzido alguns avanços também
tiveram limitações, além disso, não foram do agrado de todos os habitantes
desta pólis. Os eupátridas sentiram-se prejudicados pela perda do monopólio
político e da possibilidade de usar o próprio credor como calção pelo
empréstimo concedido. As camadas populares esperavam por reformas bem mais
profundas, como a redistribuição da propriedade privada da terra, estes fatores
faziam com que as disputas tivessem prosseguimento. A ineficácia das reformas legislativas em
conter as disputas sociais fez com que alguns indivíduos tomassem o controle do
governo pela força e passassem a exercer o poder de maneira pessoal,
estabelecendo a chamada tirania.
Psístrato (560-527 a.C.) um
aristocrata que assumiu o poder com o apoio das camadas populares, foi o maior
dos tiranos gregos. Líder do partido diacriano, Psístrato é visto por alguns
historiadores como um político demagogo que fez uso do discurso favorável às
massas como uma ferramenta capaz de sublevá-los contra os eupátridas. Durante
seu governo, incentivou o desenvolvimento marítimo-comercial e deu início à
construção de inúmeras obras públicas.
Seus sucessores, Hípias e
Hiparco, porém, não conseguiram dar continuidade ao seu trabalho, ocorrendo um acirramento
dos conflitos entre diferentes interesses da sociedade como um todo. Hiparco
foi assassinado, e Hípias, expulso da cidade.
III - A DEMOCRACIA ATENIENSE
A situação era bastante
delicada quando, em 510 a.C., Clístenes, político de origem nobre, assumiu o
governo de Atenas, disposto a implementar reformas políticas profundas. Durante
seu governo, instaurou-se a democracia, ampliando a possibilidade de participação
nas decisões políticas a todos cidadãos ateniense, independentemente da sua
renda.
As reformas de Clístenes
Contando com um amplo apoio
popular Clístenes iniciaria a criação de uma série de reformas que resultariam
na implementação do regime democrático ateniense, este é indiscutivelmente o
momento mais importante da história de Atenas. Observemos as principais medidas
de Clístenes:
Reforma Urbana: Para conter os
conflitos sociais entre os diferentes espaços da cidade – litoral, planície e
montanha, Clístenes substitui a antiga divisão em quatro tribos de origem
gentílica por dez novas, tomando o cuidado para que em cada uma delas haja um
setor para cada uma das três partes e depois, subdivide as tribos em número
variável de demos – áreas administrativas. Com tal atitude o reformador
pretendia anular as bases de segregação de Atenas.
Reforma Cívica: Abre
possibilidades maiores para que um indivíduo tenha direito à cidadania
ateniense, entendendo que os critérios necessários seriam: pertencer ao gênero
masculino, ser maior de dezoito anos, ter nascido em Atenas e ser filhos de
pais atenienses. Nasceria aqui o princípio da isonomia ateniense, segundo o
qual todos os cidadãos seriam iguais perante a lei.
Reforma Política: Para adequar
o aparelho político ateniense às reformas que vinha empreendendo, Clístenes
reformulou as atribuições e competências aos órgãos políticos da cidade, dentre
os quais mereciam destaque o Bule e a Eclésia. O primeiro receberia o acréscimo
de cem membros, sendo transformado de Conselho dos Quatrocentos em Conselho dos
Quinhentos, onde cada uma das dez tribos deveria indicar 50 representantes,
cuja função seria a preparação de projetos de lei. O segundo se tornaria mais
importante órgão da democracia ateniense, pois sendo a assembleia popular da
cidade, englobava todos os cidadãos que reunidos na Ágora (praça pública)
aprovavam as leis e decidiam as questões importantes.
Ostracismo: Seria uma
penalidade imputada a todo e qualquer cidadão que constituísse uma ameaça ao
regime democrático ateniense, consistia no banimento pelo período de dez anos,
no qual o acusado perderia todos os seus direitos políticos e a permissão para
estar em Atenas. Os condenados ao ostracismo recebiam esta punição após uma
votação sigilosa (voto dentro de uma ostra, daí o nome) ocorrida na Eclésia.
Esta seria uma maneira para evitar qualquer perigo de levante ou conspiração.
O Século de Péricles
Embora Clístenes tenha sido o
líder do levante e o autor das primeiras reformas que instituíram a democracia,
muitos autores consideram que o pai deste regime inventado pelos gregos tenha
sido Péricles, uma vez que no período em que este esteve como estratego
(dirigente supremo da Atenas democrática), a cidade alcançou o seu “período de
ouro”, verdadeiramente o seu apogeu militar, intelectual e político.
Embora a experiência
democrática de Atenas tenha sido uma inovação para o seu tempo, mesmo que
alguns autores de gerações posteriores, e até contemporâneos, exaltem o valor
deste sistema político, é preciso que se observe que este apresentava
contradições e limitações. Em seguida apresentaremos alguns dos aspectos mais
evidentes destas imperfeições.
A palavra “democracia” seria
traduzida como um “governo para a maioria”. No entanto, observamos que
mulheres, menores de 18 anos, estrangeiros e escravos não apresentavam direitos
políticos, estes personagens históricos somados formariam a esmagadora maioria
da população, mas ainda assim atenienses importantes do porte de um Péricles
defendiam a isonomia universal.
Democracia e escravismo são
duas palavras filosoficamente contraditórias, como admitir que uma sociedade
que exaltava sua capacidade de tratar todos os cidadãos como “iguais” estivesse
alicerçada no uso do trabalho escravo, uma forma de trabalho que o cativo está
absolutamente desprovido de liberdade, sofre castigos frequentes, é tratado
como uma peça pelo seu senhor.
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